Elenice A. Gomes
Ana Lúcia Tavares
RESUMO
Esse artigo sobre grupoterapia para mulheres 40+, em prática privada, ocorre semanalmente, com sessões de uma hora e meia, online pelo Zoom. Abusos domésticos acusavam a necessidade de consciência sobre condições de gênero e sexualidade. O Palco de Papéis facilita a concretização e dramatização de experiências, onde as participantes expressam os diferentes papéis de suas histórias vividas. O referencial teórico-metodológico utilizado é de Ronaldo Yudi K. Yozo. Trata-se de um estudo de caso com análise qualitativa e discussão metodológica do processo terapêutico grupal.
Palavras-chave: psicoterapia de grupo, mulheres, palco de papeis, violência de gênero.
Women’s Group Therapy 40+ and its transition from open to closed
ABSTRACT
This article on group therapy for women 40+, in private practice, takes place weekly, with one-and-a-half-hour sessions, online via Zoom. Domestic abuse pointed to the need for awareness about gender and sexuality conditions. The Paper Stage facilitates the realization and dramatization of experiences, where participants express the different roles of their lived stories. We used the Ronaldo Yudi K. Yozo‘s theoretical-methodological framework. This is a case study with qualitative analysis and methodological discussion of the group therapeutic process.
Keywords: group psychotherapy, women, role stage, gender violence.
Terapia de Grupo de Mujeres 40+ y su transición de abierta a cerrada
RESUMEN
Este artículo sobre terapia grupal para mujeres de 40+ años, en consulta privada, se realiza semanalmente, con sesiones de una hora y media, online vía Zoom. La violencia doméstica señaló la necesidad de concienciar sobre las condiciones de género y sexualidad. La Etapa de Papel facilita la realización y dramatización de las experiencias, donde los participantes expresan los diferentes roles de sus historias vividas. El marco teórico-metodológico es de Ronaldo Yudi K. Yozo. Este es un estudio de caso con análisis cualitativo y discusión metodológica del proceso terapéutico grupal.
Palabras clave: psicoterapia de grupo, mujeres, etapa de rol, violencia de género.
1 INTRODUÇÃO
A criação do grupo terapêutico de gênero teve como inspiração um ciclo de rodas de conversa só com mulheres, que aconteceu em 2023, em cinco encontros, promovido pelo Núcleo de Estudos de Psicodrama e Sistêmica. O propósito dessas rodas era discutir os cinco abusos de gênero: físico, sexual, moral, psicológico e patrimonial. Esses encontros foram conduzidos por três psicodramatistas. As experiências compartilhadas pelas participantes nesse evento evidenciaram a necessidade da criação de novos espaços de acolhimento e reflexão sobre o tema de forma mais aprofundada. Seus primeiros desdobramentos foram duas lives para outras conversas sobre interseccionalidade, diversidade de gênero, poder e raça. Daí veio a percepção da necessidade de convidar mulheres para o seu empoderamento, através de maior tomada de consciência de seu papel não só de gênero, mas também de seu lugar no mundo, suas memórias e de como lidam com seus corpos no processo sócio-histórico e cultural brasileiro, tendo suas sexualidades destacadas preponderantemente nos papéis maternos, uma vez que todas, incluindo a unidade funcional, se tornaram mães.
O objetivo desse grupo, desta feita coordenado por outra unidade funcional de duas psicodramatistas supervisoras, foi constituir um espaço de cuidado, escuta e interação entre as participantes, favorecendo o fortalecimento emocional e social e a ampliação da autocompreensão em suas dimensões individuais e relacional. Essa perspectiva compreende o ser humano a partir das relações que estabelece desde o nascimento e dos papéis que desempenha em seu contexto social. Nesse sentido, o trabalho grupal assume papel central na prática psicodramática.
A proposta inicial consistiu na formação de um grupo psicoterapêutico aberto, destinado exclusivamente a mulheres adultas, realizado na modalidade online por meio da plataforma Zoom, com encontros semanais às terças-feiras no período da manhã. Para a divulgação da proposta foram utilizadas diferentes estratégias de comunicação, como publicações no Instagram e Facebook, acompanhadas de um formulário de inscrição para mulheres interessadas, além da circulação de informações em grupos de WhatsApp, inclusive entre colegas psicodramatistas. Essa experiência reforçou a crença na sociometria de cada uma das terapeutas, pois a maioria do grupo constituído veio pelas redes de contatos pessoais, incluindo as ações afirmativas que constam de suas práticas.
Sabe-se que o grupo constitui um espaço privilegiado para a manifestação e elaboração das experiências emocionais e relacionais das pessoas participantes. A experiência grupal favorece ainda o desenvolvimento da espontaneidade e da criatividade, elementos considerados fundamentais para o processo terapêutico e para a transformação das relações interpessoais. O grupo terapêutico é um território no qual as relações podem ser exploradas e ressignificadas, possibilitando às pessoas uma ampliação e compreensão sobre si mesmas, e sobre as formas de se relacionarem umas com as outras, não só intra grupo, mas adquirindo aprendizado para as demais relações extra grupo. Nesse sentido, o trabalho grupal com mulheres pode contribuir para a construção de espaços de apoio, reconhecimento e fortalecimento coletivo, especialmente quando se trata de experiências relacionadas às violências e desigualdades de gênero. Assim, a criação de um grupo psicoterapêutico voltado exclusivamente para mulheres adultas e mães, busca oferecer um espaço seguro para a partilha de experiências, a elaboração de vivências relacionadas às relações e papeis de gênero e o fortalecimento das participantes em seus processos pessoais e coletivos.
O grupo aqui exposto compõe-se de mulheres 40+, de classe média, algumas casadas e outras com separação conjugal, todas mães e cisheterossexuais, de raças: branca, negra e amarela. A unidade funcional é composta de duas mulheres cisheterossexuais, 40+, sendo uma casada e a outra divorciada, ambas também mães.
2 DESENVOLVIMENTO
Vale a pena aqui uma transcrição das palavras do mestre Yozo sobre o bom funcionamento de uma unidade funcional:
As funções de ambos, tanto do Diretor como do Ego-Auxiliar, devem estar bem definidas, de forma a estabelecer uma relação complementar saudável sem competições ou rivalidades frente ao grupo. Outra característica relevante refere-se à postura psicodramática, ou seja, deve-se estabelecer uma relação horizontal e complementar em relação à própria unidade e ao grupo, postura esta que propicie a formação de vínculo com o grupo em questão, a fim de obter um relacionamento saudável, espontâneo. (1996, p.43)
Constituída a dupla de terapeutas, as mulheres interessadas em participar do grupo eram convidadas a realizarem uma entrevista individual prévia, com alguns objetivos: possibilitar um primeiro contato com a unidade funcional; serem informadas sobre as possíveis participantes para a verificação de não cruzamento sociométrico entre elas; e apresentar a proposta sobre o enquadre do trabalho grupal. Paralelamente, a unidade funcional construía na prática os preceitos para a sua boa funcionalidade, a partir de um projeto de trabalho coconstruído previamente, no qual se delineou a caracterização do grupo e a elaboração de um contrato com as participantes, compondo ‘grupinhos triádicos’ no whatsapp para cada uma das entrevistadas.
A entrevista inicial também tinha como finalidade conhecer a história da possível integrante e avaliar a viabilidade de sua participação no processo psicoterapêutico grupal. Nesse momento eram investigados aspectos como experiências prévias em psicoterapia, participação anterior em grupos terapêuticos ou outros contextos grupais, além de elementos relacionados à condição psíquica e relacional da participante. Buscava-se também compreender as motivações que despertaram o interesse pelo grupo. Esse procedimento inicial dialoga com a perspectiva psicodramática de compreensão do indivíduo a partir de suas relações e vínculos significativos. A partir dessas entrevistas e do contato inicial com as interessadas na proposta, foi gradualmente sendo construída uma identidade grupal. Um aspecto central para a confirmação da participação dizia respeito, sobretudo, à disponibilidade das interessadas para o compromisso com o processo terapêutico.
O grupo iniciou-se com cinco mulheres; contudo, após duas sessões, uma das participantes decidiu se desligar do grupo. Tais movimentos são esperados nas fases iniciais de formação de grupos terapêuticos, podendo ocorrer em função de dificuldades de adaptação ao grupo, da percepção de que aquele não é o momento adequado para iniciar um processo psicoterapêutico ou ainda por questões pessoais impeditivas.
Este grupo de mulheres 40+ era aberto inicialmente, heterogêneo do ponto de vista etário e étnico/racial, homogêneo quanto ao gênero, orientação sexual e classe, vivendo em diversas regiões geográficas do Brasil, se renovando a cada semestre, conforme saíam pessoas. Iniciando com cinco mulheres em 2024, variou esse número no seu transcurso e em 2026 reiniciou-se na nova conduta de fechamento e duração para o ano todo, com sete pessoas enquadradas na mesma categorização já mencionada anteriormente.
A plataforma Zoom, adotada também como a oficial pela Febrap, oferece benefícios de suas inúmeras ferramentas, que propiciam a transposição das técnicas psicodramáticas. Associa-se a isso o uso do Palco de Papeis.
2.1 Metodologia
Considerando o psicodrama dentro da perspectiva humanista e enquadrado epistemologicamente como parte da fenomenologia existencial, o caso aqui é analisado qualitativamente, ou seja, é uma pesquisa aplicada, de caráter exploratório (Bernardes, 2017), pois considera-se as experiências subjetivas das pessoas participantes e a produção coletiva quanto ao sentido e significado do que é construído espontânea e criativamente pelo grupo. É do tipo transversal, uma vez que aqui é relatado os primórdios disparadores da formação do grupo – o ano de 2023 – a sua criação propriamente dita em 2024, até as suas fases de desenvolvimento, culminando com a escrita do artigo, no momento em que o grupo ainda se encontra em funcionamento – meados de 2026. Cabe à unidade funcional o lugar de observadoras participantes.
“A relação pesquisador-participante se constrói continuamente no processo da pesquisa, podendo ser redefinida a qualquer momento no diálogo entre subjetividades, implicando reflexividade e construção de relações não hierárquicas” (Resolução 510/16, p. 1). As resoluções 510/16 e 466/12 do Conselho Nacional de Saúde encontradas no portal do governo federal discorrem sobre a Ética em pesquisas científicas. Às autoras foi conferido o respeito pela dignidade humana e proteção devida às participantes da pesquisa, obtendo o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE) delas, no grupo em curso. Houve o cuidado no desenvolvimento e engajamento ético necessários ao progresso da ciência, implicando em possíveis benefícios às pessoas pesquisadas, respeitando suas liberdades e autonomia. Em seus Termos e Definições, o item II.4 da Resolução 466/12 – afirma que os “benefícios da pesquisa – proveito direto ou indireto, imediato ou posterior, auferido pelo participante e/ou sua comunidade em decorrência de sua participação na pesquisa” é reafirmado no inciso III, artigo 2º do Capítulo I da Resolução 510/16 onde indica que pode haver “benefícios: contribuições atuais ou potenciais da pesquisa para o ser humano, para a comunidade na qual está inserido e para a sociedade, possibilitando a promoção de qualidade digna de vida, a partir do respeito aos direitos civis, sociais, culturais e a um meio ambiente ecologicamente equilibrado”.
Agora, recorrendo à teoria da Matriz de Identidade de Moreno (1993) e estendendo-a melhor para a aplicação grupal, Yozo (1996) nos remete a três grandes fases de desenvolvimento do grupo: a da Identidade Grupal, a do Reconhecimento do Eu e a do Reconhecimento do Tu. Referenciado em Moreno (1993), onde a Matriz de Identidade lança os alicerces do primeiro processo de aprendizagem emocional da criança, o grupo também percorre esse caminho de indiferenciação total no início, para uma diferenciação gradual, à medida em que as pessoas vão se (re)conhecendo em si mesmas e umas às outras, na preciosidade do compartilhamento de histórias vividas em seus territórios e memórias. A orientação seguia por esse caminho, mas após quatro semestres com saídas e entradas de pessoas novas, as terapeutas supunham que tornar o grupo fechado e com tempo determinado de duração, pudesse alcançar a terceira e última fase do desenvolvimento grupal mais eficazmente. Isso porque, entendendo a psicoterapia de grupo como um método sociátrico, e a sociodinâmica como um pilar de intervenção, elas procuraram trabalhá-los e respeitar o tempo e a dinâmica de desenvolvimento do grupo, segundo as fases da Matriz de Identidade Grupal preconizadas por Yozo.
A percepção era de que a primeira fase, segundo a classificação de Yozo (1996, p. 30) desmembrada em de identidade do Eu: eu-comigo e a segunda fase grupal de reconhecimento do Eu: eu e o outro, não se desenvolviam para a terceira, que é o reconhecimento do Tu: eu com o outro e eu com todos. A cada saída e novas entradas de pessoas, as terapeutas retrocediam às fases anteriores para trabalharem a nova configuração e necessária coesão grupal. A de Reconhecimento do Tu sempre ficava a desejar! E eis que o instrumento a seguir nos alertou para tal fato.
2.2 O Palco de Papeis
O Palco de Papeis foi a ferramenta que permitiu evidenciar essa necessidade de mudança. Tal instrumento nos remete à Sociodinâmica, onde o role-taking é o iniciador do processo de desenvolvimento de papéis dentro da teoria moreniana, na qual, para pessoas adultas, eles são classificados como sociais e psicodramáticos (psicológicos).

Figura 1 – O Palco de Papeis extraído pela ferramenta de captura de imagem do Zoom
A Fig. 1 retrata o momento de uma sessão onde as consulentes estão representadas pelas peças no palco a partir da consigna dada: a elas foi pedido que se colocassem inicialmente nos níveis do palco em que se encontravam no momento ‘aqui e agora’ grupal em que se dá o ato espontâneo e criador. Ensaiavam evoluir da segunda para a terceira fase do grupo, a do Reconhecimento do Tu, ou seja, estar com a outra e todas; mas as terapeutas foram surpreendidas com a iminência de saída de duas pessoas, que fizeram suas comunicações ao final dessa sessão ilustrada pela figura. Esse foi o timing para converter o grupo de aberto para fechado.
Esse instrumento foi utilizado também para o desenvolvimento das técnicas psicodramáticas, favorecendo a concretização e desenvolvimento destas. Segundo Carneira (Cap. 6, em Tavares e Sisti, 2025) “o Palco de Papéis é uma ferramenta valiosa no contexto do atendimento psicológico, especialmente por sua capacidade de auxiliar os clientes na visualização de cenas da vida cotidiana de maneira concreta e tangível” (p. 99). O Palco de Papeis foi desenvolvido em 2017 de forma física e sua representação foi inspirada na então federada Celeiro – Espaço Sociodramático – onde a sua criadora fazia a sua formação de psicodramatista. O contexto cósmico foi incluído e o Palco de Papeis – assim como o palco real do Celeiro – possui alguns níveis. Ele é constituído por uma lona de 50×50 cm com o fundo preto, onde são colocadas as peças de madeira, constituindo o contexto grupal. Suas bordas laterais contêm estrelas, sóis e luas representando o Cosmos. Pode-se encontrar em bibliografias de Moreno escritas sobre a galeria, que era um espaço representado como o quarto palco, podendo ser usado no caso de uma pessoa que deseja representar o papel de Cristo, por exemplo, utilizando a galeria para representar o céu, ou queira representar a entre dualidade céu e inferno. O contexto cósmico, tanto no Celeiro representado por uma cortina com sóis e luas, quanto no Palco de Papeis, tem a mesma conotação da galeria moreniana.
No seu centro de lona, com a impressão imitando madeira, tem-se um palco redondo, onde em cima é colocado outro palco redondo menor com o mesmo tipo de impressão de madeira de 30x30cm. Para representação do protagonista, plateia e egos auxiliares, existem 18 blocos geométricos de madeira compondo dois conjuntos de paralelepípedos, dois conjuntos de cubos e dois conjuntos de cilindros, cada conjunto nos tamanhos pequeno, médio e grande. Além deles, existem círculos em papel coloridos nas cores: amarelo, azul, preto, branco, verde, lilás, vermelho e laranja, podendo-se utilizar também o avesso dos círculos, que são todos cinzas.
Em 2023 – no congresso Iberoamericano realizado em Florianópolis/SC, após uma aula vivencial sobre o Palco de Papeis, um jovem perguntou se não era possível fazê-lo também em um aplicativo para o seu uso online. Hoje essa ideia inspiradora colocou em marcha o processo de desenvolvimento do Palco de Papeis Virtual. Ele já está sendo desenvolvido e utilizado no aplicativo MIRO. No entanto, é necessário um desenvolvedor profissional para que estes palcos possam ser multiplicados para quem queira utilizá-lo. O palco virtual é composto pelos mesmos contextos do palco físico, no entanto, o palco no modo virtual possui três níveis.
Moreno, em sua trajetória, utilizou diversos modelos de palcos para as suas intervenções. Ele nos traz em seu livro Psicodrama (1993, p. 319):
O palco é um instrumento essencial, indispensável para a forma ideal e objetiva de psicodrama. É tão indispensável quanto o diretor, sujeito, os egos auxiliares e o público. Na arquitetura do palco podemos discernir os seguintes princípios de construção: (a) o princípio terapêutico do círculo; (b) a dimensão vertical do palco; (c) os três níveis concêntricos do palco – inferior, médio e superior – com um quarto nível, a galeria ou nível superindividual.
Todas estas bases foram mantidas nos diversos modelos de palcos utilizados por Moreno, porém em determinados espaços eram acrescentados ou retirados alguns aspectos, assim como o modelo Vienense, que possui diversos níveis e todo o teatro é ocupado pelo palco; ou o modelo de Nova York, que não possui a galeria. Já Moreno et al. (2001) trazem que o primeiro nível do palco representa a realidade, o segundo é o da entrevista e o terceiro é o da ação, onde a realidade suplementar se manifesta.
Desde o início do processo grupal, foi possível utilizar essa ferramenta de trabalho de forma online nessa pesquisa-ação em quatro momentos distintos. Em duas ocasiões, o recurso foi utilizado para a construção do átomo familiar de duas participantes, permitindo visualizar e compreender as relações intrafamiliares, bem como os papeis e funções sociopsicológicas desempenhadas pelos membros do sistema familiar, numa perspectiva transgeracional. Em outra ocasião, ainda nessa fase inicial de identificação grupal, uma das clientes esteve ausente de uma sessão. Essa ausência foi trabalhada no grupo por meio da técnica da cadeira vazia, na qual as demais integrantes foram convidadas a ocupar simbolicamente o papel da participante ausente (Fig. 2). Cada integrante assumiu esse papel em diferentes momentos, favorecendo a expressão de percepções, sentimentos e significados atribuídos à ausência da faltante no contexto grupal.

Figura 2 – O Palco de Papeis extraído pela ferramenta de captura de imagem do Zoom
No terceiro mês de funcionamento do grupo, uma das participantes iniciou um novo trabalho profissional, o que a impossibilitou de continuar participando dos encontros no horário previamente estabelecido. Tal situação gerou um movimento grupal no sentido de buscar alternativas para que ela pudesse permanecer no processo, resultando na modificação do horário das sessões. Esse movimento foi compreendido pela unidade funcional como um indicativo do desenvolvimento do grupo enquanto coletivo, evidenciando a solidariedade e o fortalecimento dos vínculos entre as participantes. Nesse momento foi possível perceber o grupo transitando para a segunda fase da matriz de identidade grupal, caracterizada pela possibilidade de reconhecimento do outro, ou seja, do tu. Nessa fase, as consulentes começaram a ampliar as suas capacidades de perceberem o outro como sujeito e passaram a experimentar formas iniciais de inversão de papeis.
Entretanto, cerca de três meses depois, outra participante, por questões pessoais, precisou se ausentar do grupo, permanecendo quatro integrantes, até a entrada de duas pessoas novas, aproximadamente nove meses após o início do grupo. Nesse momento, as terapeutas perceberam a necessidade de retomar os contratos iniciais e reorganizar o funcionamento grupal para favorecer a inclusão das novas participantes. Durante esse período foi possível observar um certo arrefecimento dos temas que anteriormente estavam emergindo com maior intensidade, os quais pareciam retornar momentaneamente às margens do processo grupal. O reaquecimento do grupo ocorreu gradualmente ao longo de dois a três meses, à medida que as novatas passaram a se integrar à dinâmica relacional do grupo.
Apesar de se perceber que o tempo necessário para o reaquecimento do processo grupal se tornava progressivamente menor, cada movimento de saída ou entrada de participantes demandava um período de reorganização e reconstrução da identidade grupal. Diante da recorrência desse fenômeno, as terapeutas passaram a refletir sobre os efeitos da rotatividade de participantes no aprofundamento do processo terapêutico. A partir dessa constatação, optou-se por estruturar o grupo como fechado durante o período de um ano, sem a entrada de novas participantes, com o objetivo de observar a eficácia do aprofundamento do processo grupal, quando as integrantes têm a oportunidade de permanecerem juntas por um período mais prolongado.
Consequentemente, o grupo reiniciou-se em 2026 com o contrato renovado e o grupo modificado pela entrada novamente de outras pessoas e com a permanência de algumas mulheres que estiveram desde o seu início em 2024. Assim, o processo terapêutico se enriqueceu nesse percurso, sendo proposto um trabalho de alinhamento psicológico, mental e corporal.
2.3 Sobre os corpos das participantes
Utilizou-se de uma figura de contorno do corpo humano adulto retirada do Google Imagens, para que essa imagem possibilitasse trabalhar frente e costas, indiscriminadamente. As terapeutas conduziram esse trabalho da seguinte forma em uma determinada sessão:
- Depois do aquecimento inespecífico, a diretora conduziu o grupo para o aquecimento específico, pedindo a todas do grupo que se levantassem da cadeira e se colocassem a uma distância de suas telas, de maneira que pudessem ser visualizadas na totalidade de seus corpos.
- O aquecimento específico constou da movimentação de todas as partes corporais, desde a cabeça, membros superiores, tronco e membros inferiores.
- Em seguida foi pedido que pegassem uma folha de sulfite em branco – já solicitada previamente à sessão – e copiassem a imagem abaixo duas vezes, na frente e no verso do papel: uma para a frente do corpo e a outra para as costas.

- Depois de feitos os dois contornos de corpos, foi pedido que usassem duas cores diferentes neles: a primeira cor era para a marcação de partes dos corpos gostadas por elas. E a segunda cor, para assinalarem partes que não gostassem.
- No compartilhamento de suas autoimagens, apenas duas participantes relataram estarem satisfeitas com seus corpos, ou seja, menos da metade do grupo. As demais tiveram bastante autocrítica com suas próprias condições corporais, dizendo ter havido transformações importantes com a maternidade.
2.4 Acerca da maternidade
Nos mundos que habitam corpos femininos, gestar uma criança é projeto dramático de longo prazo; “ao pensarmos em um corpo vivo das mulheridades, apontamos um posicionamento que busca e reconhece a pluralidade de modos de habitar e ser no mundo” (Bruhm et al., 2026, p. 1). Neste grupo de mulheres, em uma determinada sessão, foi compartilhado que a reprodução de filhos e filhas das participantes presentes se deu de forma biológica: alguns partos feitos através de cesariana e outros de forma natural. Resenhando o livro Sexualidades, corpos e poder: desobediências criadoras, Lopes (2024, p. 2) destaca o quinto capítulo escrito por Alliny Araújo, onde ela questiona o papel social da mulher cisgênero e seus desdobramentos em outros papeis, sejam sociais ou psicológicos. Com o advento da maternidade, vem a sobrecarga de trabalho com jornadas multiplicadas e a invisibilidade política que sustentam o machismo estrutural.
Conectadas aos seus corpos conforme o trabalho dramático descrito no item anterior, essas mulheres foram trazendo para a terapia as suas mudanças corporais e psíquicas, a partir da aquisição do papel materno. Todas foram colocadas no Palco, representadas na Fig. 3, com as devidas explicações dos significados das peças. Duas mulheres se representaram no espaço cósmico, como que observando à distância os seus filhos e filhas; as demais se posicionaram no contexto dramático, assumindo o protagonismo de suas maternidades, ancoradas em suas cores significantes: esse era o arranque para o aquecimento específico para a dramatização dos protagonismos que foram sendo tratados sessão após sessão.
Figura 3 – O Palco de Papeis extraído pela ferramenta de captura de imagem do Zoom
Devido a heterogeneidade etária, algumas dessas pessoas passam ou passaram pelo climatério e menopausa. Como esse tema não é objeto do presente estudo, ele não será aprofundado aqui até por não terem sido devidamente mergulhados no processo terapêutico, assim como a narrativa hegemônica do patriarcado predominante em nossa cultura atual e sua consequente conserva colonial.
Mas, referenciando Pissinati, que marcou as diferenças hierárquicas entre os órgãos sexuais masculinos e femininos, sendo o precursor da construção dos papéis sociais de gênero, Nery e Vomero (2023) afirmam que “a ideia do lugar inferior da mulher na sociedade foi construída, a priori, no seu corpo, o que depreendeu-se da leitura de tratados médicos responsáveis por propagar o dessaber e o misticismo em torno do corpo da mulher cisgênero” (p. 2). A partir do início da gravidez de qualquer mulher ou daquela que se decidiu por entrar em processo de adoção, uma série de mudanças psíquicas começa a acontecer na vida dela (Forlin et al., 2019): surgem novos medos, insegurança, vulnerabilidades e dependência de uma rede social de apoio, seja essa rede vinda de políticas públicas (como creches e escolas, por exemplo), ou de apoio de sua família, vizinhança ou amizades.
Pode-se afirmar, categoricamente, que a maternidade atravessa os corpos femininos como fortes marcadores não só na vida pessoal de cada mulher, mas também como um divisor de águas nos seus contextos sociais e familiares. As suas relações com maridos e ex-companheiros também são atravessadas pelo advento da maternidade, trazendo consequências às vezes nefastas ao sistema familiar, inscrevendo alguns, senão todos os tipos de violência ou abuso.
3.5 Violência de gênero
“Mulheres vivenciam dificuldades diversas para se impor, conquistar espaços e se reconhecerem capazes de alcançar a grandiosidade. Mesmo aquelas que buscam lugares de destaque precisam ultrapassar barreiras que para um homem, principalmente branco, heterossexual, cisgênero e sem deficiências, não existem” (Bicalho & Vidal, 2026, p.2). Reforçando essa visão sobre iniquidade de gênero, em uma revisão robusta da literatura dos últimos cinco anos nas bases de dados do Portal da Biblioteca Virtual da Saúde, SciELO e PePSICB, Bini e Silva (2023) concluíram que em “87,04% dos estudos, o principal autor da violência era do convívio da vítima. A violência mais frequente foi a violência física acompanhada da violência psicológica e sexual” (p.1).
O último relatório institucional do Atlas da Violência de 2026 – uma parceria entre o Fórum Brasileiro de Segurança Pública e o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) – publicado no Portal do Fórum Brasileiro de Segurança Pública – foi coordenado por Daniel Cerqueira e Samira Bueno, onde ambos afirmam na Nota dos Autores, no Sumário (p. 6) que:
Mais do que compilar estatísticas, o Atlas da Violência assumiu o compromisso inadiável de jogar luz sobre as dinâmicas da violência estrutural, revelando de forma contundente como a letalidade atinge de maneira desproporcional a juventude negra, as mulheres, a população LGBTQI+, os povos indígenas, as pessoas com deficiência e os idosos.
Em seu primeiro capítulo intitulado “Conjuntura da violência no Brasil – o recrudescimento da cultura misógina e as violências de gênero” – há o relato de que com o crescimento da cultura red pill, pertencente a um sistema maior conhecido como machosfera, “essa ideologia difunde a falsa ideia de que os homens estariam sendo prejudicados pelo feminismo e de que as mulheres seriam manipuladoras, interesseiras ou naturalmente inferiores” (item 1.2, p. 10). Essa cultura machista e do patriarcado precisa ser desconstruída, porque “a construção da conserva cultural perpassa todo um contexto sócio-histórico da mulher no lugar de vulnerável em comparação ao homem” (Pereira Vidal e Dias, 2023, p. 5). Na nossa atual conjuntura, as mulheres ainda são inferiorizadas no trabalho, recebendo salários menores do que os homens que desempenham a mesma função ou não sendo alçadas a cargos de chefias como os homens são. O adágio da mulher como ‘sexo frágil’ vai sendo ressignificado pelas várias ondas e tipos de feminismos, especificamente ocorridas da segunda metade do século XX até os dias de hoje.
“Identifica-se a sociedade brasileira atual como patriarcal, racista e machista, em que as violências de gênero são ainda muitas vezes normalizadas” (Berquó, 2025, p. 2). A fragilidade das mulheres emerge no grupo terapêutico aqui estudado quando são abordados os abusos, especificamente o físico, o moral, o psicológico e o patrimonial, sendo este desconhecido por muitas, mas fazendo vítimas quase todas. Então, a luta por conquistas dessas mulheres alcança o poder judiciário. A lei Maria da Penha, que já completa 20 anos, embora ainda não conhecida por todas as mulheres brasileiras, traz seus benefícios aquelas que fazem uso dela., começando por medidas protetivas contra o agressor.
“Uma relação de submissão e poder expressa por meio do uso da força concreta ou simbólica é caracterizada por medo, isolamento, dependência e intimidação, que objetiva subjugar o corpo e a mente da mulher” (Berquó, 2025 p. 2). É por causa dessas forças de homens heteropatriarcais que as consulentes demandam terapia: para superarem seus medos, intimidações, confusões mentais, culpa e isolamento. Vergonha também é um sentimento que surge timidamente, já na terceira fase em que o grupo se encontra, onde a confiança no coletivo está mais estabelecida. Além de estarem mais consigo mesmas em busca de suas próprias valorizações, podem estar com a outra em seu momento protagônico e com o coletivo em temas comuns, em estágios avançados de empatia e compaixão, coconstruindo encontros télicos e fortalencendo-se mutuamente.
Essa experiência grupal sustenta a premissa de que mulheres, independente de suas mulheridades, ainda pertencem a um grupo social vulnerável, carentes de poder e privilégios, independentemente de qual classe e raça/etnia a que pertençam.
3 DISCUSSÃO DOS RESULTADOS
A experiência sociopsicológica descrita nessa pesquisa possibilitou refletir sobre o desenvolvimento de um grupo psicoterapêutico de mulheres na abordagem psicodramática e os impactos do formato aberto. Observou-se que, embora esse modelo favoreça o acesso e a entrada de novas participantes, a rotatividade frequente interfere no desenvolvimento e aprofundamento do processo terapêutico, pois exige constantes retomadas das fases iniciais do grupo.
Recursos como o Palco de Papeis favorecendo a técnica do átomo familiar, da cadeira vazia e dos papéis de gênero contribuíram para a expressão e compreensão das experiências emocionais e relacionais das participantes do grupo, clareando o sentir, o pensar e o agir de cada pessoa. Outro aspecto relevante foi a importância do tempo de convivência para a coesão grupal. A entrada e saída de integrantes demandava reorganizações constantes, indicando a necessidade de maior estabilidade para aprofundar o processo terapêutico.
Diante disso, estabeleceu-se a proposta do grupo fechado por um ano, surgindo como estratégia para favorecer a continuidade, o fortalecimento de vínculos e o aprofundamento das experiências.
Inserções psicoeducativas também se fizeram necessárias em alguns momentos do transcurso da terapia e todas, sem exceção, contribuíram com suas experiências não só de vida pessoal, mas também de trabalho. Fica a pergunta: por que algumas mulheres, depois da tomada de consciência dos abusos que sofrem, ainda demoram a sair dessas garras? Tempo, tempo, tempo: kairós!
Quando foi trazida a palavra sororidade ao grupo, alguém a pesquisou no Google porque a palavra lhe era desconhecida e trouxe para o coletivo: “é a união e o sentimento de irmandade e empatia entre mulheres, fundamentados na aliança e no apoio mútuo”.
4 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Evidenciou-se que a identidade grupal se constrói progressivamente, sendo influenciada pela qualidade dos vínculos. O fortalecimento dessas relações promove maior confiança, espontaneidade e cocriação, elementos essenciais no psicodrama e na manutenção do grupo. Palavras de uma participante: “o grupo vai ficando mais forte a cada sessão”.
As ressonâncias do 25º Congresso Brasileiro de Psicodrama realizado em Campo Grande/MS em junho de 2026, organizado e composto por um grande grupo de profissionais psicodramatistas e estudantes, atesta robustamente a força grupal. Evocando memórias de diferentes territórios, verificou-se profundas transformações sócio-históricas do movimento psicodramático brasileiro. Iniciado na década de 70 do século XX com o Congresso do MASP (Museu de Artes de São Paulo), esse movimento era encabeçado estritamente por homens predominantemente cisheterossexuais, brancos e especialmente psiquiatras. As primeiras diretorias da Febrap também eram presididas por esses homens. E curiosamente, nesse início do movimento psicodramático, às mulheres não cabia o direito de desempenharem o papel de diretoras, sendo esse um dos mais importantes instrumentos do Psicodrama. Muitas conquistas vêm sendo feitas de lá para cá. As mulheres podem e assumem cada vez mais os cargos de liderança na comunidade psicodramática brasileira. Desde o início do século XXI até hoje, a presidência tanto dos Congressos quanto da diretoria Febrap são exercidos majoritariamente por mulheres das mais diferentes federadas, localizadas em vários territórios do nosso país, como reflexo das mudanças sócio políticas de gênero na nossa sociedade em geral.
Com o recrudescimento dos movimentos LGBTQIAP+ e do movimento Negro principalmente, que emergiram na comunidade psicodramática com força a partir do 22º Congresso Brasileiro em 2020 – totalmente online pelo Zoom, em plena Pandemia da Covid-19 – pode-se evidenciar a mudança das relações de gênero, raça e classe. As ações afirmativas da Febrap para o último congresso permitiram que pessoas sem condições de pagar o valor da inscrição pudessem participar de forma cotizada.
Assim, faz-se mister destacar a importância de todas as formas de movimento e grupalização. Os grupos psicoterapêuticos para mulheres, as rodas de conversas e os sociodramas feitos em qualquer condição de mulheridade como espaços de acolhimento, elaboração e fortalecimento coletivo são importantíssimos. Há necessidade de refletir sobre o enquadre grupal adotado para ser multiplicado, até como profilaxia e prevenção a todo tipo de violência.
Salienta-se as conclusões e/ou posições das autoras frente aos frutos do estudo, confeccionadas por meio da exploração dos objetivos alcançados e da discussão do problema apresentado.
SOBRE O USO DE IA
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