IMPACTOS DA TRANSIÇAO DE GÊNERO DE ADOLESCENTE NA FAMÍLIA

Elenice A. Gomes

Resumo

O artigo pretende contribuir com o conhecimento sobre o tema na prática clínica, ao ser compartilhada uma experiência insipiente do atendimento a uma família brasileira emigrante há alguns anos para outro país. A experiência intrafamiliar de uma transição de gênero tem trazido muito sofrimento e conflitos
a todos e entre todos os membros desse sistema, que busca ajuda profissional para superação de seus impasses.

Graças ao movimento mundial crescente da comunidade LGBTQIA+ e a políticas inclusivas na contemporaneidade, nós profissionais da saúde mental nos vemos na obrigação de aprofundar sobre o
assunto, delineando bem os conceitos e definições sobre orientação sexual e identidades de gênero, bem como os termos relacionados à vivência trans, para sabermos diferenciá-los com clareza e melhor intervirmos no setting terapêutico, seja ele presencial ou on-line.

Palavras-chave: família; gênero; identidade; orientação sexual

Abstract

The article intends to contribute to the knowledge on the subject in clinical practice, by sharing an insipid experience of care for a Brazilian emigrant family a few years ago to another country. The experience of an intrafamily gender transition has brought much suffering and conflict to all and among all members
of this system, which seeks professional help to overcome its impasses. Thanks to the growing global movement of the LGBTQIA+ community and inclusive policies in contemporary times, we mental health professionals see ourselves in the obligation to delve deeper into the subject, outlineing well the concepts and definitions about sexual orientation and gender identities, as well as the terms related to trans experience, so that we know how to differentiate them clearly and better intervene in the therapeutic setting, whether it’s face-to-face or online.

Keywords: Family, gender, identity; sexual orientation

Introdução

Esse escrito tem como objetivo primordial sistematizar as principais informações atuais sobre o tema para o atendimento inicial a uma família constituída por quatro membros, sendo o casal parental heterossexual cis e duas filhas adolescentes. Os pais encontram-se em desespero. Como objetivo específico, esse paper poderá servir de guia para esse atendimento clínico, onde a filha adolescente primogênita passa solitariamente ainda por uma transição de gênero. A terapia familiar torna-se o primeiro recurso integrativo desse sistema familiar dividido quanto ao encaminhamento de suas vidas, uma vez que o casal parental resiste em aceitar essa decisão da filha, ao passo que a irmã mais nova a apoia. Desnecessário se faz o termo de consentimento da família, já que o caso não será discorrido aqui. Apenas a partir da entrevista inicial com a família, várias questões serão levantadas aqui a título de reflexão para as pessoas profissionais da área que queiram se aventurar nesse tipo de atendimento, que se pretende ser inclusivo da problemática em questão e, também, elucidativo a todas as pessoas participantes do sistema terapêutico.

Desenvolvimento do tema

A Organização Mundial de Saúde define adolescência como a faixa etária entre 10 e 19 anos, embora saibamos que esse limite possa se estender, por exemplo, devido ao aumento do tempo de estudos. Seu início é marcado por grandes mudanças físicas e hormonais.
Segundo o wikipedia, transição de gênero é o período pelo qual uma pessoa passa para se adequar ao gênero que ela realmente sente pertencer, podendo se submeter a tratamentos hormonais, cirúrgicos, fonoaudiológicos, entre outros, para paulatinamente transformar suas características primárias e
secundárias nas do gênero desejado.

Uma família brasileira de quatro pessoas emigrou-se para outro país. É composta de casal parental heterossexual e duas filhas com pouca diferença de idade, que estavam saindo da infância e entrando na puberdade/adolescência quando se migraram. Sabemos que qualquer mudança geográfica pode gerar
muitos transtornos psicológicos e emocionais a qualquer pessoa, visto que haverá distanciamento de vínculos adquiridos e estabilizados, enquanto muitos desafios advirão para a construção de novos relacionamentos em uma nova forma de vida, para a inserção em outra cultura, outros hábitos, costumes e até novo idioma. Nas palavras do pai: “vivemos aqui uma solidão a quatro”.

Há poucos meses, a filha mais velha – agora com 17 anos – chegou para a mãe e disse que não era uma menina, mas um menino. Segundo dados colhidos na entrevista, ela também comunicou o fato à direção da escola, onde pediu para que mudassem seu nome social na lista de alunos. A escola atendeu prontamente esse pedido e passou a chamá-la pelo nome escolhido. A mãe e o pai se chocaram com essa comunicação; já a irmã passou a apoiá-la nessa transição de identidade de gênero. Tal fato cria um divisor entre os dois subsistemas: o fraternal e o parental.

Essa garota em transição será referenciada aqui no gênero feminino, por ainda haver um processo em curso, cheio de dúvidas e outros atravessamentos.

A família, ainda impactada, encontra-se em dificuldades para aceitar o fato e procura ajuda profissional. Segundo a mãe, essa filha nunca deu mostras de ter uma orientação sexual diferente da hetero e sempre brincou com ‘brinquedos de meninas’, sempre usou ‘roupas e cabelos de meninas’ e tinha os cabelos de comprimento na cintura até recentemente. Essa filha tem uma amiga na escola que se declara bissexual e a mãe questiona se há alguma influência entre ambas as amigas. Na verdade, precisamos perguntar: o que essa amizade a que a mãe se refere pode estar trazendo para sua filha? Que inquietações essa amizade traz aos pais? São perguntas que podem levar cada membro da família a refletir sobre seu papel (Moreno, 1993a) e função dentro do sistema familiar.

Agora essa jovem começou a fazer mudanças na aparência que, além de cortar os cabelos bem curtinhos, vem mudando sua maneira de se vestir, modificando sua expressão de gênero, que para Ciasca (2021) é a: “forma como a pessoa deseja se expressar em um determinado momento e contexto, em relação aos padrões sociais de gênero. Abrange imagem corporal, roupas, adornos e gestos. Não necessariamente está de acordo com os padrões de gênero e pode ser fluida”. Fica a questão para ser explorada: é apenas uma mudança na expressão de gênero por enquanto ou já é uma certeza para a mudança de identidade?

O pai acha tudo isso uma loucura, pois no país dito desenvolvido onde moram atualmente, as instituições escolares e de saúde aceitam rapidamente as solicitações de mudança das pessoas, por medo de serem processadas judicialmente. As instituições de saúde aceitam e aprovam rapidamente inclusive fazer bloqueios hormonais, caso a pessoa solicite, sendo maior de idade. Segundo a mãe, a escola sequer chamou os pais para conversarem sobre o assunto de mudança do nome social da filha. E os seguros de saúde facilitam o processo, caso a pessoa também deseje. Mas a filha em questão, ainda não pediu para ter seus hormônios femininos bloqueados. E vale questionar os pais: como está o diálogo escola-família?

Família é o locus onde se formam pessoas por identificações ou contra identificações e onde as pessoas adolescentes começam a exercer sua individualidade. Para esse casal parental, o momento é extremamente doloroso, não pela simples aceitação ou não de uma nova identidade de gênero da filha, mas por duvidarem da assertividade dela. Em meio a tantas novidades, essa filha revelou ter sido abusada por um pedófilo nas mídias sociais da internet quando tinha por volta de 14/15 anos. Vale lembrar que estas filhas são nativas digitais e, portanto, cabe a pergunta: como os pais as ajudaram a lidar com essa
realidade? Ampliaram a capacidade reflexiva da família sobre a ética relacional e cuidados com a internet e, também na vida presencialmente? Mesmo assim, a filha que se diz em processo de transição afirma ter tido duas experiências amorosas não virtuais e heterossexuais depois do referido abuso.

Importante destacar que orientação sexual é representada pelo afeto/romance, ou atração física/desejo ou emocional ou não, que uma pessoa sente por outra, independentemente do gênero. “As formas de orientação do desejo sexual variam entre assexuais, heterossexuais, bissexuais e
homossexuais” (Dantas, 2020). Acrescento as pessoas pansexuais. Existem pessoas que só definem e assumem sua orientação sexual na fase adulta, enquanto outras têm clareza de sua orientação na adolescência e outras já afirmam que nasceram com sua orientação sexual definida. Com o desenvolvimento da tecnologia de biologia molecular nos últimos 20 anos, foi possível estudar as diferenças entre os cromossomos ao nível do sistema nervoso central. A genética e o ambiente também apontam terem influência na orientação sexual. Corroborando genialmente, a sigla GETA (Genes, Espontaneidade, Tele e Ambiente) foi cunhada por Moreno já em 1940, como uma função para definir a personalidade do sujeito (1993a, p. 102 – nota de rodapé).

Já gênero é “estrutura social e construção histórica do que é ser homem/masculino ou mulher/feminino nas diferentes épocas e sociedades” (Ciasca,2021). A identidade de gênero é como a pessoa se identifica em relação ao seu gênero. E a incongruência de gênero ocorre quando um indivíduo não se identifica com o gênero pelo qual foi designado ao seu nascimento.

Isso posto, que perguntas devem ser feitas a essa família, tanto às filhas quanto aos pais? Como lidar com essas diferenças em relação à heteronormatividade e à congruência de gênero? Como transitar sistemicamente por tantas dúvidas, facilitando conexões e ao mesmo tempo, preservando a individualidade e a intimidade de cada pessoa? A técnica do duplo – conforme descrita em Moreno (2006, p. 383) – será bastante necessária e útil para alavancar novos pensamentos e elaborar os sentimentos presentes em cada indivíduo.

Para a endocrinologista Karen de Marca (2021), quando a pessoa se reconhece na incongruência de gênero, começa uma longa e difícil caminhada tanto para ela quanto para a família dela, especialmente se tratando de crianças e adolescentes. Ainda não temos ambientes totalmente especializados nesse tipo de atendimento, que “idealmente, essa assistência deveria ser conduzida por uma equipe multiprofissional, com psicólogos, psiquiatras, endocrinologistas, ginecologistas, fonoaudiólogos, cirurgiões na área de plástica e urologia, etc”.

Acredita-se que a determinação da identidade de gênero é resultado da interação entre fatores biológicos (hormônios, genética e estrutura cerebral), psicológicos (papeis de gênero estruturados socialmente com os quais as pessoas podem se identificar ou não) e socioculturais (fatores que podem influenciar papeis de gêneros estereotipados, mesmo em famílias que procuram ter maior igualdade de gêneros, educando crianças e adolescentes sem comportamentos cristalizados de cada gênero).

Mas a nossa adolescente em questão ainda não se dispôs a fazer alterações mais profundas em sua corporeidade. E sabemos que a transfobia ainda está presente em muitos de nós. Então, outra questão importante: como cada membro da família lida com os próprios preconceitos? Como é para cada
pessoa a transfobia? A técnica da inversão de papeis poderá nos ser muito útil para a exploração dessas condições de gênero e preconceitos, à guisa d’ A Família Terapêutica em Moreno (1993b, p. 226).

Pesquisando mais sobre o tema, no prefácio de Roudinesco (2022) está a seguinte frase de Claude Lévi-Strauss: “Nem muito perto, nem muito longe…a uniformização do mundo leva tanto à sua extinção quanto à fragmentação das culturas”. É preciso acolhermos as diversidades fora da norma, pois tratamos de seres humanos, com suas almas em ação. Como podemos construir um novo projeto dramático junto com essa família?

Simone de Beauvoir foi quem deflagrou um novo pensamento acerca da sexualidade humana com sua célebre frase: “Não se nasce mulher, torna-se mulher”. Sua obra de 1949 onde essa frase está inscrita, o Segundo Sexo, causou forte impacto e até escândalo na época, pois ela falava da sexualidade feminina em todas as suas formas e nos mínimos detalhes, levando em conta não apenas a realidade biológica, social e psíquica da mulher, mas também os mitos fundadores das diferenças entre os sexos não só na vida privada. Mas ela não chegou a conceitualizar gênero.

Desde Aristóteles, pensava-se que o gênero dominava o sexo, onde o homem ocupava um lugar soberano. Já no século XIX, o pensamento se inverteu; o sexo no sentido biológico e anatômico é que definia o gênero: monismo (sexo único) de um lado e dualismo (diferença anatômica) de outro. Ainda assim, a masculinidade sempre foi pensada como superior à feminilidade (falocentrismo). Freud apresentou uma síntese desses dois modelos, afirmando existir uma única libido (ou pulsão sexual), incluindo a existência da bissexualidade. Para ele, haveria três gêneros: macho, fêmea e andrógino. Além disso, a bissexualidade psíquica é central na gênese da sexualidade humana em sua obra: a mulher inveja o pênis do homem, assim como ele inveja a feminilidade dela.

Foi nos anos 1970 que outros pensadores se debruçaram na distinção dos conceitos de sexo e gênero como construção identitária, tais como: Judith Butler, Heinz Kohut e Robert Stoller. O objetivo de seus estudos era compreender a ocultação da existência do papel das mulheres e minorias sexuais oprimidas pela dominação de um poder patriarcal de um lado, e de outro, entender as formas de distinção que os sexos induzem e conduzem uma sociedade. Robert Stoller foi um psicanalista que até a década de 1990 procurou
explicar a transexualidade através da bissexualidade de uma mãe muito próxima a seu filho, ausência e passividade com bissexualidade do pai, juntamente com influência de uma irmã. Nessa sua tese, as vivências dessa criança com pênis determinariam o grau de feminilidade dela. Judith Butler, uma filósofa pós estruturalista estadunidense e teórica contemporânea do feminismo, por sua vez, através de sua teoria queer (questionando) afirma que o gênero é a maneira como as pessoas se identificam em relação às referências sociais de gênero; para ela, o gênero é construído a partir da repetição de atos estilizados associados ao que é considerado masculino ou feminino, constituindo uma performance de gênero, vivenciada e praticada. A partir de então, outros estudos ganharam força e evidência, demonstrando haver elementos biológicos, tanto hormonais quanto genéticos e cerebrais, que podem levar à autodeterminação
da identidade de gênero.

Assim, “identidade de gênero é a convicção da pessoa em se reconhecer como homem, mulher, algo entre essas definições ou fora do padrão binário hegemônico, independentemente do sexo biológico e da expressão de gênero” (Ciasca, 2021, p.38). Portanto, tal identidade é autoproclamada.

Ehrensaft, citado por Ciasca (p.42) afirma que o “desenvolvimento da identidade de gênero não é um processo linear, podendo se constituir de forma fluida, rígida ou flexível, sendo ressignificada ao decorrer da vida”. Se a criança não for estereotipada por seus pais ou substitutos no desenvolvimento de sua matriz de identidade (Fonseca Filho, 1980), como por exemplo exigindo que ‘menino veste azul e menina veste rosa’ ou ‘meninas brincam de bonecas e meninos brincam de carrinhos e super herois’, essa criança poderá exercer melhor sua espontaneidade e criatividade (Moreno, 1993) em relação ao seu próprio gênero, podendo exercer sua liberdade de ser quem quiser ser desde a sua infância mais tenra. Ela aprenderá mais facilmente a integrar seu corpo, mente, cérebro e psique.

Considerações finais

Este tipo de atendimento, o familiar, vai requerer da pessoa de terapeuta uma postura extremamente cuidadosa e um planejamento muito bem pensado do processo. Haverá que se fazer sessões combinadas entre os subsistemas parental e fraternal, ora propiciando também sessões individuais com a adolescente desejosa de fazer sua transição. E por que não sessões individuais com os outros membros? No percurso terapêutico, será importante uma escuta ativa da verdade existencial da adolescente em transição. Do ponto de vista de um prognóstico, será necessário a desconstrução de preconceitos e reconstrução de novos valores éticos e morais. Em se consumando a certeza do transicionamento, haverá que se fazer um luto da menina e, em paralelo, o nascimento do menino e seu ‘batismo’, incluindo o nome social já escolhido por ela. Esse luto deverá ser trabalhado coletivamente. E o trabalho deverá ser estendido para uma atenção transdisciplinar, envolvendo profissionais de várias áreas. Mas haverá uma aceitação amorosa de uma possível nova identidade de gênero por parte da família? Esse é o desafio!

Referências

Ciasca, S.V., Hercowitz, A., Junior, A. L. (2021). Saúde LGBTQIA+: Práticas de Cuidado Transdisciplinar. Santana do Parnaíba, Manole.
Dantas, C.; Lentz, C.; Eutrópio, A. C. (2020). Meu adolescente: memórias, diálogos e conexões. Belo Horizonte, Ed. Da Autora.
Fonseca Filho, J. S. (1980). Psicodrama da loucura: correlações entre Buber e Moreno. São Paulo, Ágora.
Marca, K. (2021, 29 de janeiro). Um caminho de cores e dores por trás da transição de gênero. Vejasaúde, Blog Com a Palavra.
Moreno, J. L. (1993a). Psicodrama. São Paulo, Cultrix.
Moreno, J. L. (1993b). Psicoterapia de Grupo e Psicodrama. Campinas/SP, Editorial Psy.
Moreno, J. L. (2006). Psicodrama: terapia de ação e princípios da prática. São Paulo, Daimon – Centro de Estudos do Relacionamento.
Roudinesco, E. (2022). O eu soberano: Ensaio sobre as derivas identitárias. Rio de Janeiro, Zahar.

Trabalho apresentado em Mesa Redonda no 23° Congresso Brasileiro de Psicodrama, em setembro de 2022.

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